sábado , 20 setembro 2014
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A morte do cinegrafista da Rede Bandeirantes: Santiago Andrade

Uma reflexão sobre a doença social que tem afetado a nossa sociedade e gerado crianças, adolescentes e jovens insanos

Jemoel Assis*

Neste texto não pretendo me deter no fato isolado em si, objeto do título, mas gostaria de me aprofundar no problema crônico social, que acredito ser a origem desta e de outras tragédias que têm assolado a nossa sociedade. Me chamou a atenção o fato de que o tatuador Fabio Raposo tenha se apresentado sozinho, tanto na polícia quanto na televisão. Seu discurso foi um discurso de alguém despreparado para enfrentar aquela situação terrível que ele mesmo produziu.

Não havia um pai, uma mãe, ou qualquer outra pessoa responsável ao seu lado. Esta situação não me comove, devido a barbárie do crime, mas me choca. A minha perplexidade é devida ao fato de que a nossa sociedade está se especializando em formar um exército de crianças, adolescentes e jovens abandonados.

A origem deste abandono é a desestruturação da família. Os homens, que ontem eram chefes de família, líderes dos seus lares, se tornaram homens inconsequentes e irresponsáveis, sempre em busca da nova conquista, seja uma nova mulher, um novo carro ou um novo emprego. É só nisso que pensam, nada mais. Ser exemplo, referência ou inspiração para seus filhos virou coisa do passado, soterrado pelo egoísmo e a vaidade pessoal.

Ao meu ver, nunca na história da humanidade a mulher mendigou tanto por atenção. Mulheres famintas emocionalmente, sobrecarregadas física e espiritualmente, se tornaram objeto de uso e se prestaram de forma voluntaria e cordeira a este triste papel. Deixaram de ser namoradas, noivas, esposas e mães e ganharam os rótulos de “vadias”, “cachorras”, “preparadas”, “popozudas”, etc…

Vivendo numa eterna e infrutífera competição entre si, elas se submetem a verdadeiras torturas físicas e emocionais, buscando alcançar a silhueta padrão Barbie e não envelhecer, com o único objetivo de agradar aos homens que por sua vez têm tantas opções de mulheres que já não querem mais se relacionar com elas. É um loop eterno de egoísmo e insatisfação.

O resultado disto é uma geração de crianças, adolescentes e jovens abandonados e desorientados.

O fato incontestável e que não quer se calar é que há no ser humano uma necessidade básica de ser aceito, de pertencer a algo e de se unir a um grupo social. Esta necessidade de pertencimento, no projeto original do homem, deveria ser inicialmente preenchida pela família, pai e mãe, depois aprofundado pela escola e por último, seguindo o processo de amadurecimento natural, pela família que este mesmo homem deveria formar, seja como pai ou como mãe, gerando filhos e filhas, dando continuidade à sua própria existência.

A nossa sociedade, doente como está, tem falhado em dar as crianças, adolescentes e jovens este sentimento de pertencimento e ai eles, tentando atender a sua compulsividade de pertencimento, buscam fazer parte de alguma coisa, qualquer coisa, que possa preencher esta sua necessidade natural. Pode ser um grupo religioso, um clube, um grupo de extremistas radicais, uma facção criminosa ou até mesmo um grupo terrorista, tudo vai depender de seu caráter e de sua personalidade.

Aliado a isto, soma-se ainda o fato de que a mesma família que não consegue suprir a necessidade de pertencimento também falha em estabelecer limites. Os limites são regras sociais aprendidas primeiramente na família e depois na escola e que irão pautar para sempre o relacionamento do indivíduo com a sociedade

Tendo a sua necessidade de pertencimento não suprida e a falta de limites, gera-se um ser carente por ser aceito e disposto a fazer qualquer coisa para se sentir parte de algum grupo, até mesmo soltar uma bomba no meio de uma multidão, independente das consequências deste seu ato.

A falta de limites torna estas crianças, adolescentes e jovens incapazes de fazerem um julgamento moral sobre suas ações. Nós cidadãos ética e  moralmente conscientes, não conseguimos entender por que eles agem assim e eles não conseguem entender que estão errados, pela falta desta mesma consciência ética e moral. Isto obviamente não os torna inocentes. São culpados de seus crimes e devem pagar por eles. A falta do cumprimento das leis em uma sociedade civilizada nos levará de volta a barbárie.

Jovens desesperados por atenção e de pertencerem a algum grupo, sem capacidade de discernimento moral, por falta de limites, são presas fáceis para políticos inescrupulosos, facções criminosas e grupos extremistas.

Se a sociedade brasileira não cair em si numa profunda e sincera reflexão sobre a forma como as famílias têm criado seus filhos e não mudar a sua rota, filosofia, seus princípios e seus valores, em breve se tornarão comuns atos de terrorismo no Brasil e só nos sobrará a repressão através de uma lei mais dura e de uma polícia mais violenta.

Talvez alguém possa achar que eu estou exagerando e eu torço para que realmente eu esteja. Porém, quero deixar uma reflexão para os nossos leitores, mães, pais e responsáveis: Onde estão seus filhos agora neste exato momento?

Eu espero sinceramente que a maioria de vocês saiba onde eles estão e que tenha uma relação de amor e respeito mútuo com seus filhos, porém temo que na grande maioria dos casos os pais tenham perdido o controle sobre seus filhos pelo total abandono que impuseram a eles, sob a desculpa de que estavam muito ocupados fazendo alguma coisa que naquele momento era mais importante do que dar atenção aos filhos.

No caso especifico que estamos falando, a vítima, o cinegrafista da rede bandeirante está morto; um jovem de vinte e poucos anos, Fabio Raposo, está preso, acusado de homicídio doloso, crime cuja pena prevista é de 35 anos e outros mais serão indiciados. Está é uma história sem final feliz, todos nós saímos perdendo.

*Jemoel Assis de Oliveira é casado, 4 filhos, Consultor e Gerente da PETROBRAS, 30 anos de experiência em gestão de pessoas, Graduado em Comércio Exterior, Teologia, Pós-graduado em Filosofia, Especialização em Petróleo e Gás pelo IBP e MBA em Gestão Empresarial pela FGV. Atualmente cursando o MBA “Negócios de Petróleo, Gás e Energia” na Universidade Veiga de Almeida

Fonte: http://www.administradores.com.br/artigos/cotidiano/a-morte-do-cinegrafista-da-rede-bandeirantes-santiago-andrade/75553/

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